A Clover Bite apresentou ao mundo, no primeiro Grime, um cenário surreal esculpido em pedra, carne e horror cósmico. Quatro anos depois, a sequência chega com uma promessa: refinar a mistura característica da série entre combate punitivo e beleza grotesca, ao mesmo tempo que expande seu universo peculiar.
No papel de um Sem Forma – uma criatura capaz de roubar a aparência dos inimigos abatidos – você é lançado a uma nova terra feita de tinta, unhas e esculturas gigantescas. É um ambiente que soa imediatamente familiar em sua hostilidade, mas totalmente inédito em sua arte macabra. O resultado é um Metroidvania que brilha na atmosfera e na qualidade dos chefes, mas que ocasionalmente tropeça na clareza narrativa e na consistência tonal.
Gameplay e pontos positivos
O grande destaque de Grime II está no ciclo de combate e exploração. A mecânica central – absorver inimigos para criar Moldes – transforma cada confronto em um quebra‑cabeça estratégico. Em vez de simplesmente brandir uma arma, você aprende a usar seus apêndices para aparar golpes, agarrar os adversários durante os ataques e converter sua essência em ferramentas: projéteis, aliados invocados ou golpes especiais devastadores. Esse sistema confere ao combate uma qualidade rítmica, quase coreografada, que o diferencia dos soulslikes convencionais.
A variedade é impressionante: mais de trinta armas, vinte conjuntos de armaduras e quarenta habilidades permitem uma liberdade genuína na construção do personagem. A exploração é igualmente recompensadora. As plataformas exigem precisão, mas a movimentação é fluida, e segredos se escondem em cada canto da paisagem surreal.
Os confrontos contra chefes, em especial, são verdadeiros espetáculos – cada um uma obra‑prima grotesca que testa tanto seus reflexos quanto seu domínio da absorção. Diferentemente de muitos jogos do gênero, a morte aqui é generosa: você nunca perde a experiência acumulada, o que incentiva a experimentação em vez do medo.

Pontos negativos
Essa generosidade, no entanto, não justifica algumas frustrações persistentes. A narrativa, por exemplo, permanece confusa durante boa parte da jornada. Os diálogos são tão enigmáticos que beiram o obscuro, e embora a estética do mundo conte uma história, os elos entre suas partes muitas vezes se perdem.
O sistema de armaduras também merece críticas: em vez de oferecer defesa direta, cada peça funciona principalmente como um intensificador de estatísticas e ativação de bônus por conjunto, o que pode fazer com que equipar novos itens pareça menos impactante do que deveria.
Mais irritantes são os inimigos comuns espalhados pelos biomas. Muitos possuem padrões de ataque atrasados ou deliberadamente estranhos, que parecem mais feitos para punir do que para desafiar, transformando o simples deslocamento em um exercício de paciência. Até a trilha sonora deixa a desejar: a ambientação sonora é funcional, mas raramente memorável, uma oportunidade perdida em um jogo cuja identidade visual é tão marcante.

Veredito
No fim das contas, Grime II entrega exatamente o que os fãs do original esperavam – uma jornada maior e mecanicamente mais refinada por um mundo que continua sendo único no gênero. Seus pontos fortes são consideráveis: chefes excelentes, um sistema de combate que recompensa criatividade e uma atmosfera tão densa que se pode quase tocá‑la. No entanto, a opacidade narrativa, o design irregular dos inimigos comuns e a trilha sonora esquecível impedem que ele alcance o panteão dos grandes clássicos.
Para aqueles que valorizam combate tátil e profundidade exploratória acima de uma história amarrada, a recomendação é fácil. Para todos os outros, trata‑se de uma sequência fascinante e imperfeita, que prova que a visão da Clover Bite continua admiravelmente estranha – ainda que, às vezes, se perca em suas próprias sombras.

Grime II já está disponível para Playstation 5, Xbox Series X|S e PC.
*Análise escrita com chave para PC cedida por Masamune









