Em um gênero frequentemente saturado de tropos mitológicos e clichês de fantasia, Hell Clock surge como um roguelike ARPG ousado e culturalmente rico, que desafia expectativas.
Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Rogue Snail, o jogo entrelaça magistralmente a história brutal da Guerra de Canudos (1896–1897) — onde 25 mil civis foram massacrados — com uma narrativa de fantasia sombria sobre vingança e redenção.
Lançado hoje, 22 de julho de 2025, ele coloca os jogadores nas botas ensanguentadas de Pajeú, um guerreiro ex-escravizado que luta através de um purgatório demoníaco para resgatar a alma de seu mentor morto, Antônio Conselheiro. O resultado é um jogo tão emocionalmente intenso quanto mecanicamente empolgante.
Um cenário mergulhado em fúria histórica
O maior triunfo de Hell Clock está em seu compromisso inflexível com suas raízes históricas. O jogo reimagina o conflito de Canudos não como pano de fundo, mas como o coração pulsante de sua trama. Os jogadores confrontam encarnações aterrorizantes de opressores reais, como o eugenista racista Dr. Raimundo Nina Rodrigues, enquanto exploram versões distorcidas de paisagens brasileiras.
A narrativa se desdobra em três atos, mesclando dublagem em português e inglês para entregar performances autênticas e cruas. Isso não é mero enfeite: a angústia dos sobreviventes de Canudos permeia cada cutscene e diálogo, elevando as apostas além das típicas missões de masmorra.
A inclusão de orixás do Candomblé em árvores de habilidades e relíquias ancora ainda mais o jogo em especificidade cultural, oferecendo uma homenagem comovente à resistência.

Jogabilidade: agressão contra as probabilidades
Em seu cerne, Hell Clock é um híbrido implacável de combate ARPG no estilo Diablo e progressão roguelike. Os jogadores disparam, cortam e se esquivam por masmorras geradas proceduralmente, repletas de inimigos infernais, usando um arsenal versátil que inclui balas encadeadas, investidas evasivas e um ataque giratório de facas que arrebata multidões.
Mas a reviravolta genial do jogo é o Hell Clock implacável que paira na tela. Cada partida — tipicamente de 10 a 30 minutos — torna-se uma corrida contra o tempo. Se o relógio chegar a zero, você é ejetado da masmorra. Essa mecânica gera tensão de forma brilhante, forçando os jogadores a equilibrar risco (caçar saques) e recompensa (avançar mais fundo).
Chefes congelam o relógio, oferecendo alívio catártico, enquanto abates concedem EXP para bônus temporários (Bênçãos da Proficiência). Para os avessos à pressão, um Modo Relaxado remove completamente o relógio — embora os puristas argumentem que ele é essencial para o ritmo furioso do jogo.

Profundidade nos detalhes: builds e progressão
Hell Clock brilha mais intensamente em seus sistemas de progressão intrincados. Entre partidas, os jogadores retornam a um centro para criar builds devastadoras através de:
- Relíquias: equipamentos permanentes que modificam habilidades (ex.: adicionar dano elétrico às facas), gerenciados em um inventário estilo Tetris que exige escolhas estratégicas.
- O Grande Sino: uma árvore de habilidades que lembra uma constelação cósmica, oferecendo melhorias como +tempo máximo ou +resistência a dano.
- Bugigangas: bônus temporários específicos de cada partida que incentivam experimentação.
A sinergia aqui é excepcional. Encontrar uma relíquia que encadeia raios em giros de faca ou acumular buffs de área de efeito cria momentos de fantasia de poder espetacular. Desbloqueios do endgame, como o sistema Constelação, adicionam customização quase infinita — embora a interface tropece ocasionalmente com gerenciamento desajeitado de relíquias e falta de salvamento de loadouts.

Visual áspero e performance peculiar
Visualmente, Hell Clock adota uma estética marcante de quadrinhos que lembra Darkest Dungeon, com cutscenes renderizadas em detalhes sombrios e impactantes. O design de som amplifica a atmosfera — tiros estalam, instrumentos brasileiros ecoam ameaçadoramente, e rosnados de inimigos causam desconforto.
No PC, o desempenho é suave, mas a versão Steam Deck sofre, exigindo ajustes (configurações baixas, limite de 50 FPS) para estabilizar. Problemas de escala de texto também prejudicam a experiência portátil.
As masmorras de Hell Clock podem parecer repetitivas em sessões longas, e alguns inimigos beiram a esponjosidade, exigindo builds ajustadas em menus mais do que habilidade para superá-los. A ausência de saves durante as partidas frustra, e falhas na interface — como a incapacidade de organizar relíquias — adicionam atrito desnecessário. Mesmo assim, esses tropeços raramente ofuscam os triunfos do jogo.

Veredito: um inferno que vale a pena visitar
Hell Clock é um triunfo ousado e emocionalmente ressonante para a Rogue Snail. Ele casa a história brasileira com mecânicas roguelike de forma revolucionária, oferecendo profundidade para veteranos de ARPG e acessibilidade para iniciantes através de seus modos de dificuldade flexíveis (Padrão, Hardcore com morte permanente e Relaxado).
Apesar de falhas técnicas e repetição pontuais, o coração do jogo — seu combate furioso, pressão temporal engenhosa e autenticidade cultural — bate com força do início ao fim. Para fãs de Hades ou Diablo, esta é uma experiência essencial e refrescante em um inferno onde cada segundo emociona.

Hell Clock já está disponível para PC via Steam.
*Análise escrita com chave para PC cedida por Mad Mushroom









