Em fevereiro de 2026 a Editora Devir deu continuidade à publicação da HQ Departamento da Verdade da Verdade no Brasil. O material chega ao seu terceiro volume – intitulado “O que seu país pode fazer por você” – e tem entre seus principais nomes criativos James Tynion IV, Martin Simmonds, Alison Sampson e outros. No quesito qualidade, o material continua com o mesmo padrão caprichado dos anteriores, com boas cores, gramatura do papel e capa cartonada.

Porém uma grande diferença é a quantidade de história que o Volume 3 apresenta. Isso porque, os volumes brasileiros normalmente compilam dois americanos, ou seja, trazem cerca de doze capítulos em um único encadernado. Aqui temos apenas seis, sendo a outra metade do material um compendium de criaturas classificadas pelo Departamento e que são pelo menos citadas na narrativa.

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O conteúdo extra é um bom complemento para aprofundar o universo e realmente traz informações interessantes que muitas vezes são apenas citadas pelos personagens na história. Entretanto, a história mesmo toma um rumo tão interessante que mesmo com a riqueza do material adicional é difícil não pensar que o volume poderia ter mais seis capítulos como os dois anteriormente publicados.

Volta no tempo

Mas tudo bem. Agora, falando um pouco da narrativa, começamos do ponto em que o Volume 2 havia terminado. Para evitar matar seu marido, Cole Turne convence Lee Harvey Oswald a colaborar com um plano ousado. Eles pretendem expor o Departamento da Verdade por suas próprias palavras e não pela forma que foi descrito ao jornalista pela Agência Black Hat. Lee se senta à mesa e conta como ingressou e algumas de suas histórias, mas focando em um evento importante que teve participação: o assassinato do presidente americano John F.Kennedy.

A partir de sua narração, a história para no tempo presente e reconta o passado, abordando também diversas personalidades americanas e o poder de suas imagens dentro do contexto de criação de uma verdade em um mundo que a crença coletiva reflete na existência ou não existência. Com isso, a origem do Departamento se consolida, bem como conceitos abordados em volumes anteriores que ganham mais corpo e constroem bem a narrativa.

Departamento da Verdade -1

Em quesito de roteiro, “O que seu país pode fazer por você” é uma história sólida e esclarecedora. Ao trazer o agente Turne mais vivido em seu cargo e o agente Lee com a cabeça um pouco mais aberta em suas abordagens, temos momentos que esclarecem pontos nebulosos e que foram meticulosamente construídos para serem explicados na hora certa.

Estrutura visual

Um ponto que sempre chama a atenção na série é sua diagramação, uso de cores e escolhas estéticas. Por lidar com temas como teorias da conspiração, política, entre outros, temos espaço para diferentes estilos de arte que condizem com a loucura narrada. Neste volume temos este trabalho feito tão bem quanto nos volumes anteriores, porém com um ponto que aparenta quebrar a parede com o leitor.

Sobre suas artes é feito um uso de cores mais sãs e comedidas nas partes que se trata da realidade. Já quando falamos dos trechos que tratam das crenças materializadas, realidades que vão sendo construídas e criaturas, é utilizada uma extrapolação de cores e traços para passar a intenção da arte de forma bem precisa. Esses detalhes conversam com o roteiro e engajam a leitura.

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Na diagramação não temos exatamente um padrão. A folha é dividida de forma a trazer a dinâmica necessária, inclusive com a alteração do sentido da leitura quando é preciso representar algo alterado. Novamente, essa construção é consonante com todo o resto e torna tudo ainda mais divertido. É uma história que você quer saber cada vez mais de tão instigante.

Por fim, um ponto que une diagramação, roteiro e ilustrações, é o tópico da quebra da parede que separa os personagens do leitor. Em diversos momentos da história, enquanto Lee Oswald conta os eventos que passou, temos diálogos que parecem explicitamente direcionados para quem está lendo. Assim, a história consegue encaixar o leitor no lugar do jornalista que está recebendo as supostas verdades.  

Explorando os subtextos

Não só nesse volume mas como os demais, veremos muitas teorias da conspiração irreais e bastante imaginativas. Mesmo que algumas tenham sido exploradas – como o Pânico Satânico -, podemos combinar que a maior parte se baseia em lendas urbanas e mitologias. Ainda sim, extrair a parte fictícia de monstros e locais ultrassecretos pode trazer reflexões interessantes.

Pensar na construção da verdade, se ela realmente existe ou algo subjetivo imposto por um grupo ou no poder do imaginário popular é algo muito válido. Em suma, todos estes tópicos refletem fatalmente na construção de poder e construção de hierarquias.    

Veredito

Departamento da Verdade  Vol. 3 – O que seu país pode fazer por você – é uma leitura indispensável. Logicamente é necessário a leitura dos dois volumes anteriores. Seu tom traz um humor ácido interessante, ótimas ilustrações e diagramações que mostram como a equipe criativa sabe o rumo que quer para a história. Os temas tratados são interessantes e mesmo ultrapassando os limites da imaginação carregam subtextos cabíveis para o mundo que vivemos quando pensamos o que é ou não verdade ou o quanto do que foi construído traz algo real, não meramente conveniente.

REVER GERAL
Roteiro
Ilustração
Colorização
Diagramação
Renan Alboy
Mestre em Ciência da Computação e Jornalista. Editor Chefe do O Megascópio e apaixonado por jogos!
critica-departamento-da-verdade-vol-3-expande-e-explica-o-universo-de-maneira-espertaDepartamento da Verdade Vol. 3 - O que seu país pode fazer por você - é uma leitura indispensável. Logicamente é necessário a leitura dos dois volumes anteriores. Seu tom traz um humor ácido interessante, ótimas ilustrações e diagramações que mostram como a equipe criativa sabe o rumo que quer para a história.