Lacrimosa of Dana, escrito por Anna Kashina, é uma adaptação literária ambiciosa e comovente do aclamado jogo Ys VIII: Lacrimosa of Dana, conhecido por sua narrativa rica e personagens vibrantes.

Publicado em 2023, este romance de fantasia de 465 páginas condensa uma aventura interativa de 60 horas em uma narrativa ágil e emocional. Embora com algumas falhas pontuais, o livro triunfa tanto como homenagem nostálgica para fãs quanto como porta de entrada para o universo de Ys aos novos leitores.

Tivemos a oportunidade de receber o livro (veja nosso post no Instagram para conferir a edição completa) pela editora Dragonwell Publishing – confira o que achamos da obra em nossa análise.

Você também pode conferir tudo sobre o jogo no qual o livro foi baseado em nosso artigo abaixo:

Enredo

A história centra-se em Adol Christin, o espadachim ruivo e herói perene da série Ys, cuja viagem pelo Mar de Gaete termina em tragédia quando seu navio, o Lombardia, é destruído por uma criatura marinha monstruosa. Após naufrágio na maldita Ilha de Seiren — um lugar envolto em mitos e morte —, Adol une-se a outros sobreviventes para construir um refúgio, explorar as paisagens traiçoeiras da ilha e desvendar seus segredos ancestrais.

A trama ganha uma dimensão transcendental quando Adol começa a ter sonhos vívidos com Dana, uma sacerdotisa da civilização perdida de Eternia, que viveu milênios antes dele. Sua conexão psíquica torna-se o eixo da narrativa, entrelaçando seus destinos enquanto enfrentam entidades primordiais que ameaçam extinguir a humanidade em duas linhas do tempo paralelas.

Os trunfos

O maior triunfo de Kashina está na profundidade que concede aos personagens do jogo, especialmente Adol e Dana. Nos games, Adol é um protagonista silencioso, agindo mas raramente falando. Aqui, a autora presenteia-o com monólogos internos ricos e diálogos, transformando-o de um avatar jogável em um aventureiro compassivo e complexo, movido por curiosidade e resiliência.

Dana também ganha camadas: sua solidão, coragem e determinação ecoam com força enquanto ela navega pelas ruínas de sua própria era e guia Adol na dele. O vínculo entre os dois, que no jogo era subtendido, floresce em um romance comovente e predestinado, acrescentando peso emocional à missão compartilhada.

A terceira perspectiva, da estudiosa Laxia von Roswell, também brilha, com seus capítulos trazendo rigor intelectual e subtramas românticas mais matizadas que na obra original.

Adaptação de jogo para literatura

A prosa é fluida e imersiva, com vozes narrativas distintas para cada protagonista: as seções de Adol transbordam ação e deslumbramento; as de Dana carregam uma gravidade melancólica; as de Laxia oferecem profundidade analítica. Kashina simplifica sabiamente as sequências de combate do jogo, focando nas dinâmicas entre personagens, na mitologia e na beleza enigmática dos mistérios de Seiren.

Essa abordagem confere um tom literário à obra, mas cobra seu preço: cenas de ação, incluindo confrontos com chefes cruciais, parecem apressadas, resolvidas em poucos parágrafos. Personagens secundários, como o pescador Sahad ou a órfã nativa Ricotta, recebem desenvolvimento mínimo, deixando seus arcos subaproveitados.

O ritmo é o desafio mais persistente. A trama avança em velocidade alucinante, acelerando por eventos-chave com tanta eficiência que momentos de introspecção ou laços entre os náufragos raramente respiram. Embora isso garanta uma leitura dinâmica, por vezes enfraquece as tensões emocionais.

Os temas de família escolhida e sobrevivência comunitária do jogo ficam em segundo plano frente à luta cósmica de Adol e Dana — algo catártico, mas que simplifica o drama humano da ilha. Leitores novos podem achar os capítulos finais sobrecarregados, com ameaças, mitos e linhas temporais convergindo de forma abrupta.

Veredito

Apesar dessas falhas, Lacrimosa of Dana brilha como uma carta de amor ao material original. A reverência de Kashina pelo jogo é palpável: ela preserva seus grandes momentos épicos enquanto aprofunda seu núcleo emocional. A abordagem do tempo, destino e sacrifício é reflexiva, e o clímax, ainda que acelerado, entrega uma mistura satisfatória de tragédia e esperança.

Para fãs de Ys, é uma chance de revisitar Seiren com novos olhos; para leitores de fantasia, é uma história autônoma sobre aventura e conexão entre eras, elevada pela prosa elegante de Kashina. No fim, o livro não substitui o jogo, mas complementa-o com harmonia. Tropeça ao tentar condensar um RPG vasto em um único volume, mas decola quando mergulha no coração de seus protagonistas.

Se você busca uma fantasia épica com apostas atemporais e um romance que desafia eras, esta adaptação é uma jornada válida — de preferência com a trilha sonora do jogo ecoando ao fundo.

Lacrimosa of Dana
Capa de Lacrimosa of Dana, de Anna Kashina. Reprodução/Dragonwell Publishing

*Análise escrita com material recebido através da Dragonwell Publishing

REVER GERAL
Enredo
Personagens
Ambientação
Ritmo
Escrita
Matheus
Fã de Yu-Gi-Oh!, Drakengard/NieR, Ys e Trails. Nas horas vagas, analista de Relações Internacionais e professor de inglês.
critica-uma-jornada-no-tempo-e-nos-sonhos-em-lacrimosa-of-dana-de-anna-kashinaLacrimosa of Dana brilha como uma carta de amor ao material original. A reverência de Kashina pelo jogo é palpável: ela preserva seus grandes momentos épicos enquanto aprofunda seu núcleo emocional. A abordagem do tempo, destino e sacrifício é reflexiva, e o clímax, ainda que acelerado, entrega uma mistura satisfatória de tragédia e esperança.